A prop�sito da beatifica��o dos Pastorinhos


1 - O Francisco
No dia 11 de Junho de 1908 nasceu Francisco Marto. Foi baptizado na fonte baptismal da igreja paroquial de F�tima, no dia 20 de Junho. Era um beb� de rosto bem feito. N�o chorava. O mesmo nome do "poverello" de Assis anunciava que seria um rapaz pac�fico e amigo da natureza. Foi franco e foi generoso.
Cresceu na aldeia de Aljustrel.
Tinha cinco irm�os, quando nasceu. O Jo�o � mais velho e ainda vive na mesma aldeia. D� tstemunho da seriedade do Francisco e da Jacinta a irm� mais nova.
Jo�o ainda caminha pela aldeia, agora com alguma dificuldade; vai pausadamente pelas asseguias, congostas ou azinhagas, bem como pelos trilhos ou carreiros. Continua a apreciar �gua-mel, e anseia por ver restaurada a sua "casa paterna", em frent � "casa dos franceses"...
O velho Jo�o gosta de falar das traquinices do irm�o. Mas n�o deixa de sublinhar no Francisquinho a seriedade e a serenidade, duas palavras que t�m as mesmas letras, mais uma, que � inicial da palavra nobreza. Do esp�rito.

2 - A Jacinta
Jacinta nasceu no dia 11 de Mar�o de 1910. Ainda era monarquia mas a rep�blica estava a bater � porta. Foi baptizada no dia de S. Jos�. A fam�lia era muito crist�.
Recebeu o nome da sua madrinha, na mesma fonte, ou pia baptismal
O baptismo � o renascimento. "Somos incorporados na Igreja de Cristo". A madrinha vai esfor�ar-se por que a menina "cumpra fielmente as obriga��es" inerentes ao sacramento do baptismo. O nome que lhe deram pode significar uma flor ou uma pedra preciosa. Jacinta foi as duas coisas.
A Jacintinha gostava de fazer seu o que ia contactando; n�o contradizia o sobrenome, pois Marto quer dizer que � senhora da casa, e senhora de si; fazia seus os bot�es que ganhava ao jogo! Mais tarde, perante as hesita��es da prima, corajosamente responde com o irm�o: "N�s vamos, pois aquela Senhora mandou-nos l� ir".
� esta a mulherzinha decidida. At� na cadeia consegue que um preso pendure na parede uma medalha e que todos rezem o ter�o. Jacinta era Marto e foi Marta.

3 - O Consolador e a Amiguinha
Francisco foi crescendo e assimilando a cultura envolvente. Apercebeu-se que o novo regime pol�tico, que tinha decretado a expuls�o dos jesu�tas e de todas as ordens religiosas, continuava a levantar a poeira da inquieta��o!
Era pac�fico. Deu dois vint�ns (meio tost�o, ou cinco centavos do escudo) para que um passarinho fosse soltado.
Quando tinha oito anos, viu na Loca do Cabe�o "um jovem com cerca de 15 anos". Era o anjo da paz. A mesma figura transparente reapareceu no po�o do Arneiro. Francisco viveu a recomenda��o de se sacrificar pelos pecadores.
Pela 3� vez, novamente na Loca do Cabe�o, voltou a aparecer o anjo. Francisco e Jacinta comungaram do c�lice. E os dois pastorinhos repetiram muitas vezes o mesmo gesto de se prostrarem por terra, rezando � Sant�ssima Trindade.
Francisco foi sempre o consolador de Jesus. Jacinta aprendeu a ser, cada vez mais, amiga dos pobres pecadores. Francisco era o consolador e Jacinta era a amiguinha. O mesmo amor. Francisco partia de Jesus e Jacinta convergia para Jesus.

4 - Os pastorinhos trabalhavam!
As apari��es do anjo e da Senhora purificaram a vida dos pastorinhos.
Os dois irm�os (que praticavam "trabalho infantil") depois da Missa de domingo, dia 13 de Maio, estavam a construir uma casita, quando sentiram o 1� rel�mpago. Assim dizem os diversos relatos.
Colhemos dois apontamentos. O 1� � que os dois Martos n�o andavam na escola.
Tempos e lugares diferentes. Ainda hoje h� muitos analfabetos! A Senhora mandou que aprendessem a ler. A cultura valoriza as pessoas.
A fam�lia Marto era numerosa, e cada um participava da maneira que podia.
Depois da missa, sem fanatismos, tratava-se do gado e da casa. A tarde era reservada para o conv�vio, e o descanso.
O 2� ponto � que as 3 crian�as estavam a edificar uma "paredita em volta de uma moita", quando pressentiram algo de especial. Mais tarde, nos Valinhos, a mesma jovem Senhora recomendar� para se construir uma "capela".
... Poder� vir a prop�sito lembrar a capela que foi dinamitada e reconstru�da, a bas�lica, e o novo espa�o coberto, em projecto.
A Senhora pediu uma constru��o e os peregrinos t�m direito a serem bem acolhidos num amplo lugar de culto e cultura. A mesma Senhora manda que trabalhemos.

5 - Para alcan�ar o fim da guerra
A 1� sauda��o/recomenda��o que fez a Senhora foi que n�o tivessem medo.
E o 1� pedido foi que se rezasse para se alcan�ar o "fim da guerra".
O que � rezar sen�o pedir a ajuda de Deus e dizer a todos os homens que optem pela paz, fruto da verdade e da justi�a?
Sim, rezar � converter-se e agir em conformidade. Por solidariedade correspons�vel tamb�m as crian�as t�m um papel importante na condu��o das na��es. Ningu�m est� a mais e cada um pode dar o seu contributo.
... A Senhora n�o p�de aparecer no dia 13 de Agosto, pois os pastorinhos estavam presos. Seis dias depois, no lugar dos Valinhos manda que no m�s seguinte estejam na Cova da Iria.
Porqu� a prefer�ncia? Podia, de facto, escolher qualquer outro lugar, mas entendeu que a locu��o "Cova da Iria", que significa "ber�o da paz" j� � uma mensagem e um programa.
Toda a "pastoral de F�tima" converge para a paz. Na capela das confiss�es e no lausperene. Na capelinha das apari��es e no grande recinto. A palavra de ordem � a paz.
Dois sinais se juntaram recentemente a essa "pastoral de conjunto", a saber: um peda�o do muro de Berlim, que est� ao lado da casa do Carmo, e a bala que feriu o Papa em 1981, e foi colocada na coroa nobre da "rainha da paz". A Senhora vestida de branco deseja que sejamos um n�o � guerra e � viol�ncia. Na amizade e na entreajuda!

6 - Conselheiros e Mensageiros
A Jacintinha foi par�clita. Que se pretende sugerir? Que foi animadora e conselheira. Por exemplo: consolou e consolidou a prima, quando ela teve d�vidas.
A palavra grega � quase intraduz�vel. Significa que algu�m est� presente, como companheiro de quem caminha ou secret�rio que assessora quem precisa de ajuda.
Jacinta comunicou conforto e fortaleza.
O par�clito n�o se limita a instruir e aconselhar; ilumina o esp�rito para o discernimento, e impele a vontade para a op��o vital.
Na 2� mem�ria, L�cia conta que estava dominada pelo medo de se ter enganado ou confundido. N�o seriam coisas do dem�nio? As advert�ncias do p�roco e as insist�ncias da m�e faziam que temesse e tremesse. Se dissesse que era tudo fantasia, acabavam-se as inquieta��es.
E nas v�speras de 13 de Julho resolve n�o ir � Cova da Iria na data aprazada.
A Jacintinha reagiu com vigor: "Aquela senhora � t�o bonita, e n�s vimo-la subir ao c�u".
Perante a ang�stia da prima, que desejaria libertar-se e acabar com tudo se dissesse que "tinha mentido", o Francisco e a Jacinta, por unanimidade e em un�ssono repetiam: "N�o fa�as isso. N�o v�s que mentir � pecado?" Francisco e Jacinta foram mestres da verdade. Com coragem!

7 - Saber perdoar e amar
Francisco amava a Natureza. Gostava de ver o sol, subia aos lugares mais altos para a� tocar o p�faro e cantar. Era contemplativo.
O Francsico respeitava todos e tudo. N�o esquecia os passarinhos; migava o p�o da sua merenda para lhes dar de comer. E falava com eles.
Francisco amava as pessoas, a come�ar pelos mais pr�ximos. A Ti Maria Carreira dizia que o Francisco era "o seu anjinho da guarda".
No realcionamento amava a verdade e a justi�a, aureolando-as com a toler�ncia e o perd�o, como no caso do len�o da Nazar�: "que me importa o len�o?".
Mas sobremaneira e sobretudo amava a Jesus escondido no sacr�rio. Depois da 3� apari��o do anjo, ao saber que tinha comungado do c�lice, o Francisquinho transformou-se, a ponto de poder dizer: "� Cristo que vive em mim".
Viveu como um sorriso e "morreu a sorrir", como disse o pai Manuel Pedro. Foi uma das 102.750 v�timas da pneum�nica em Portugal, nos anos 1918-1919.
Quando, na doen�a, j� n�o podia rezar, pedia que rezassem alto, a fim de poder ouvir e acompanhar. E dizia que no c�u ia "consolar" Nosso Senhor. Partiu para o c�u no dia 4 de Abril de 1919. Sabia que tinha de rezar, antes de ir para o c�u. E foi, dos tr�s, o primeiro a fazer essa viagem!.

8. Um sinal mais vis�vel
Os pastorinhos Francisco e Jacintra Marto, na apari��o de Junho, "pareciam estar na luz que se elevava para o c�u". Essa luz irradiava da Senhora, que entretanto abrira os bra�os.
Os dois irm�os j� vivem na luz.
A Jacinta partiu no dia 20 de Fevreiro de 1920. Era noite. Voou par a luz sem ocaso.
Os dois pastorinhos deixaram a sua p�tria natal, quando se acendia a luz da esperan�a. A sua diocese de Leiria tinha sido restaurada (17-1-1918). Tinham sido restabelecidas as rela��es diplom�ticas de Portugal com a Santa S� (10-7-1918). Tinha sido beatificado Nuno �lvares Pereira (23-1-1918). Preparara-se o pacto da Sociedade das Na��es (28-4-1918) e o tratado de Versailles (28-6-1918).
As crises eram c�clicas, mas a for�a da esperan�a era maior. Em Portugal. E no mundo.
O sinal do sol, para Maria, como o sinal de Jonas, para Cristo, era e continua a ser o "garante" de que a f� continuar� a iluminar este povo de Portugal.
Francisco e Jacintam, agora beatificados, s�o um sinal mais vis�vel de uma grande cruz, que aponta para a convers�o e para a salva��o.
Foram os primeiros "cruzados de F�tima", e agora s�o os padroeiros do Movimento da Mensagem de F�tima. Todos somos chamados. Que ningu�m esteja a menos!

9. A Beatifica��o � uma B�n��o
Porque me pediram algumas "notas" breves sobre os pastorinhos, entendi que nove apontamentos seriam quase nada.
Sem fazer a gin�stica cabal�stica de 3+3+3 ou 3x3, e sem lembrar os nove coros dos anjos ou os nove meses da gesta��o, recortarei das Mem�rias (2� M., III, 5) quanto segue: "Eu tinha prometido � Sant�ssima Virgem, se ela me concedesse o que eu lhe pedia, ir a�, durante nove dias seguidos, acompanhada de minhas irm�s, rezar o ros�rio e ir, de joelhos, desde o cimo da estrada at� ao p� da carrasqueira; e no �ltimo dia levar nove crian�as pobres e dar-lhes, no fim um janta. Fomos, pois, cumprir a minha promessa, acompanhadas de minha m�e que dizia: "Que coisa. Nossa Senhora curou-me e eu parece que ainda n�o acredito, n�o sei como isto �".
Foi longa a cita��o, mas � saborosa e interpelativa. Sem magias e sem supersti��es, vemos muitos sinais, desde a novena at� � caminhada de joelhos...
Toda a pastoral de F�tima, hoje e sempre, � um conjunto harmonioso, desde o gesto de caridade, at� ao sol que dan�a.
A beatifica��o vem enriquecer todo este patrim�nio. Representa novo reconhecimento dos acontecimentos de F�tima, e apresenta duas crian�as como sinais de imita��o e de intercess�o.
A Sociedade e a Igreja precisam do Francisco e da Jacinta Marto. Eu tamb�m!

D. Serafim Ferreira e Silva
Bispo de Leiria-F�tima