Mem�rias de uma proximidade com Jo�o Paulo II


Em Fevereiro ou Mar�o de 1982 ocorreu uma das maiores surpresas da minha vida: recebi um telefonema de um sacerdote amigo pedindo-me para, urgentemente, me encontrar com ele pois tinha algo de importante a comunicar-me.
Esse sacerdote integrava a equipa respons�vel pela prepara��o da recep��o no Porto a Sua Santidade o Papa Jo�o Paulo II, cuja visita a Portugal para visitar o Santu�rio de F�tima com a inten��o anunciada de agradecer a intercess�o da Virgem por ocasi�o do atentado ocorrido no ano anterior era j� h� tempos objecto de not�cias e coment�rios em todos os �rg�os de comunica��o social.
Era sabido que o programa dessa visita continha, entre outras, uma passagem pela cidade do Porto, com o objectivo, tamb�m anunciado, de falar expressamente do e para o mundo do trabalho e os trabalhadores.
Pessoalmente e desde os meus onze anos eu sempre tinha sido um "trabalhador". A partir dos 14 que havia militado, como militante, primeiro e dirigente mais tarde, na Ac��o Cat�lica Oper�ria (J.O.C.) � qual posso afirmar ter dedicado toda a minha juventude.
Na altura, j� com 49 anos, casado h� 22 e com nove filhos, quadro m�dio de uma grande empresa, situa��o a que tinha ascendido com muito trabalho e esfor�o, j� n�o pertencia directamente � Ac��o Cat�lica Oper�ria (no caso a L.O.C. para a qual havia transitado ap�s o casamento, como era estabelecido nos regulamentos da A.C.).
N�o podia imaginar o motivo do telefonema citado. Foi com um grande choque que recebi o convite, em nome da Comiss�o Respons�vel, para saudar o Santo Padre n�o em "nome de" mas "na qualidade de" trabalhador. Fiquei como atordoado mas aceitei e foram dois ou tr�s meses de ansiedade e expectativa um pouco temperados com a prepara��o do texto sempre em estreita colabora��o com o referido sacerdote meu amigo.
N�o tinham ainda passado quatro anos que tinha sido eleito, ap�s s�culos, o primeiro Papa n�o italiano e ainda por cima "vindo do frio", da Pol�nia, de Lech Walesa, da revolta dos trabalhadores contra o regime supostamente erguido em seu nome.
Em Portugal estava a consolidar-se a democracia cujas portas haviam sido abertas em Abril de 1974 mas as condi��es e as tens�es faziam sentir-se ainda dum modo muito forte e notavam-se particularmente no chamado "mundo do trabalho" em que a expectativa duma eventual vit�ria duma ideologia que fora marcante em muitos se ia desvanecendo mas alimentava esperan�as em n�mero consider�vel.
Na Igreja, a Ac��o Cat�lica havia-se praticamente desagregado. Foram em grande n�mero os que, particularmente nos movimentos oper�rios cat�licos, se deixaram seduzir (ou j� estariam secretamente seduzidos) por vis�es ideol�gicas que n�o podiam condizer com o pensamento da Igreja. Lembro que na altura, por exemplo, ler alguns dos jornais dos movimentos oper�rios cat�licos pouco diferia de ler outras publica��es essas, sim, manifestamente ideol�gicas. Muitos, entre os quais me inclu�a, n�o aceitaram pactuar com esta situa��o e da� o afastamento da milit�ncia activa dos movimentos oper�rios cat�licos.
Neste clima, quando se tornou conhecida a escolha da minha pessoa para a sauda��o ao Santo Padre (por indiscri��o dum jornal do Porto) foi grande a contesta��o por parte dos movimentos existentes (J.O.C. e L.O.C.) e que n�o podia deixar de aumentar a minha preocupa��o.
Chegou enfim o dia 15 de Maio de 1982. Foi uma imensa multid�o que afluiu ao centro da cidade para ver, ouvir e ovacionar o Santo Padre. Fora criada uma singela mas bela estrutura para receber Jo�o Paulo II e permitir que ele se dirigisse � enorme massa de gente.
Dadas as circunst�ncias eu tinha um passe especial para poder ter acesso ao local e foi a� que, em companhia de sua Ex� Revm� o Arcebispo/Bispo do Porto, j� D. J�lio Tavares Rebimbas que recentemente sucedera a D. Ant�nio Ferreira Gomes, a Comiss�o Diocesana Respons�vel e algumas entidades convidadas, tive a honra, a alegria e vivi a emo��o de ver, cumprimentar e falar com Sua Santidade que a todos saudou e falou em portugu�s.
A cerim�nia foi empolgante com o entusiasmo vibrante da multid�o, o Hino Pontif�cio cantado por um enorme coro, a alegria a emo��o de todos. Pessoalmente fiz o que me estava destinado e na sauda��o ao Santo Padre procurei p�r todo o sentimento que me dominava.
Verdadeiramente importante, por�m, foram as palavras do Santo Padre em que ele lembrou aos presentes e ao mundo a verdadeira dignidade do trabalho, como modo e meio de realiza��o de cada homem e nunca como instrumento da sua aliena��o e muito menos da sua escraviza��o, a import�ncia da solidariedade entre os homens e os povos, a supremacia do "ser" sobre o "ter" e a mensagem de que o destino do homem � eterno e tudo o mais, incluindo o trabalho, s�o caminhos para a realiza��o desse destino.
No fim de tudo e como lembran�a muito forte retenho a sauda��o amiga do Santo Padre e as palavras "mais uma vez" e os dois Ter�os que me ofereceu, benzidos por ele pr�prio na minha presen�a, um para mim e outro para minha mulher, que guardamos como lembran�a preciosa. A mem�ria de tudo isto tem-me acompanhado e creio me acompanhar� at� ao fim da vida terrena.

Joaquim dos Reis Pereira Soares