Festa e Sinal de Contradi��o


O Santo Padre, anci�o de oitenta anos t�o sofridos, vem de novo a F�tima, agora s� por causa de duas crian�as. D� bem que pensar esta decis�o de um homem a quem Deus marcou como profeta do s�culo XXI. O Papa vem a F�tima declarar que, d'ora em diante, as crian�as podem ser motivo de grande louvor a Deus, porque s�o um grande e extraordin�rio dom que Ele faz � Igreja e � humanidade. Sem deixarem de ser crian�as!
Embora s� meio a s�rio, diremos que, realizando-se esta beatifica��o de crian�as pela primeira vez numa Igreja que j� tem dois mil anos, poderemos falar de uma esp�cie de revolu��o. As revolu��es n�o parecem muito conformes com as institui��es que duram mil�nios, j� que manifestam sempre a incapacidade de uma solu��o lenta e atempada dos problemas da vida, e trazem sempre consigo um volume imenso de estragos, que n�o raro s� com outras revolu��es se podem remediar. Como a Igreja tem promessa de permanecer at� ao fim dos s�culos, compreende-se que n�o seja campo frequente de revolu��es. Mas j� se admite que de quando em quando, e em virtude de estar tamb�m ela sujeita � lei das mudan�as, possa ser marcada por acontecimentos mais fortes, que se pare�am com pequenas ou grandes revolu��es. A beatifica��o dos dois videntes de F�tima tem essa caracter�stica j� que, at� ao dia 13 de Maio deste ano 2000, n�o ter� havido uma �nica que tenha sido achada digna subir aos altares, para al�m das que foram martirizadas por �dio � f�.
Revolu��o de qu�? E para qu�?
Revolu��o de ideias. A crian�a passa a ser objecto de muito mais aten��o na Igreja. No campo da catequese, da liturgia, da ac��o social. Agora que as ci�ncias profanas se dedicam tanto � constitui��o e evolu��o do ser humano, j� desde antes do primeiro momento da sua concep��o, a Igreja vai intensificar a sua aten��o �s crian�as, para que elas tenham verda-deiramente a possibilidade de expressarem e desenvolverem os dons de santidade que Deus concede a todos os seus filhos, nalguns casos em grau extraordin�rio. No campo pedag�gica, todos os agentes da catequese v�o sentir mais fortemente a necessidade de se debru�arem, com aten��o e carinho, sobre a evolu��o ps�quica, a delicadeza, e a valor (!) das crian�as, por-que o caso dos Pastorinhos de F�tima lhes vem tornar mais evidente que Deus quer, para cada crian�a como para o seu pr�prio Filho, que os adultos a ajudem a crescer �em sabedo-ria, em estatura e em gra�a, diante de Deus e dos homens� (Lc 2, 51 s).
Os crist�os sempre acreditaram que as crian�as podem ir para o C�u, dando com isso ao mundo um grande testemunho de como apreciam altamente a sua dignidade. Mas a partir de agora ficam a saber melhor que, por mais tenra que seja a sua idade, elas t�m em germe uma voca��o que as pode conduzir aos mais altos cumes da perfei��o humana. Para cada crian�a pode valer a palavra de Deus a Jeremias:�Antes de te haver formado no ventre materno, Eu te consagrei e te constitu� profeta das na��es�. (1,5).
Este �salto� da Igreja, na beatifica��o do Francisco e da Jacinta, pode estar destinado a espantar o mundo de hoje, muito atrapalhado sobre o valor que h�-de atribuir �s crian�as que, se por um lado t�m cada vez mais assegurada uma s�rie de direitos importantes, por outro s�o cada vez menos desejadas num mundo adulto que s� pensa no presente imediato, at� ao ponto de lhe parecer normal que raz�es de conveni�ncia entreguem nas m�os das m�es o direito � vida de seus filhos.
N�o estar� este ��dio� � crian�a no cerne do drama da solid�o que corr�i hoje a humanidade? Demos ent�o gra�as a Deus que, tamb�m neste cap�tulo, constituiu F�tima em sinal salv�fico de contradi��o, para a gera��o do terceira mil�nio.

Pe. Luciano Guerra
Reitor do Santu�rio de F�tima