Raz�es para uma viagem fora de calend�rio


A beatifica��o de Francisco e Jacinta Marto esteve prevista para o dia 9 de Abril passado, em Roma, inserida no calend�rio das celebra��es do Jubileu. Em Novembro de 99, a not�cia divulgada pelos Bispos portugueses e pelo P. Kondor, em Roma, que Jo�o Paulo II viria a F�tima beatificar os pastorinhos, causou surpresa e foi recebida com cepticismo e incredulidade nos ambientes do Vaticano mais directamente ligados precisamente � organiza��o das viagens pontif�cias.
As condi��es f�sicas do Papa que atravessou o limiar do ano 2000 est�o, como se pode constatar, muito debilitadas. Por isso, no ano 2000 s� estavam previstas viagens directamente relacionadas com o Jubileu, assumindo um claro e forte significado b�blico, cristol�gico, salv�fico: uma grande peregrina��o, seguindo as pegadas dos patriarcas e profetas do Antigo Testamento, desde a terra de Abra�o, no Iraque, at� Bel�m e Jerusal�m, passando pelo Monte Sinai, no Egipto A primeira dessa longa e articulada peregrina��o em diversas etapas, Ur dos Caldeus, no Iraque, foi cancelada em Dezembro. Mantiveram-se as outras, embora no Monte Sinai n�o tenha sido poss�vel realizar um grande encontro das tr�s religi�es monote�stas, como era desejo e inten��o de Jo�o Paulo II. Porqu� ent�o a desloca��o a F�tima, podendo a cerim�nia de beatifica��o ter lugar em Roma - porventura com mais relevo internacional, tendo garantida uma cobertura medi�tica mais vasta do que porventura ter� na Cova da Iria?

Testemunho local
O Papa n�o precisou de se deslocar a Crac�via no passado dia 1 de Maio para canonizar Faustyna Kowalska, ap�stola da Divina Miseric�rdia: a celebra��o foi organizada de modo a decorrer simultaneamente em Roma e diante do Santu�rio que lhe � dedicado, em Lagiewniki, ligado com a Pra�a e S. Pedro atrav�s da televis�o polaca.
A aceita��o pessoal do Papa do convite para beatificar em F�tima os pastorinhos j� falecidos deve ter pois outras motiva��es, porque o Vaticano n�o cede facilmente a press�es. � verdade que o cancelamento da viagem ao Iraque, pelas raz�es pol�ticas e econ�micas conhecidas, de certo modo libertou um lugar na lista das viagens deste ano. Mas n�o foram, nem est�o neste momento, agendadas outras viagens para o ano 2000, embora n�o faltem convites.
Uma forte raz�o para a 3� desloca��o de Jo�o Paulo II a Portugal, que ser� breve e se destina exclusivamente a viver uma forte experi�ncia religiosa num dos mais frequentados santu�rios marianos do mundo, � sem d�vida a tradi��o inaugurada por este Papa de realizar as cerim�nias de beatifica��o e canoniza��o dos Servos de Deus, sempre que poss�vel, nos lugares onde eles deram testemunho da f� e praticaram as virtudes her�icas que motivaram a sua eleva��o - como se diz - "�s honras dos altares".

Uma motiva��o mais profunda
Mas adivinha-se neste caso uma motiva��o mais profunda e um significado mais vasto para o esfor�o que Jo�o Paulo II aceita realizar, uma semana antes de completar 80 anos de idade. N�o poucos, � luz da raz�o, duvidaram que Jo�o Paulo II, tendo em conta o atentado de que foi v�tima na tarde do dia 13 de Maio de 1981, pudesse fisicamente aguentar tantos anos de incans�vel pontificado, e que desempenhasse o seu servi�o pastoral em grande parte de forma itinerante, viajando constantemente. A figura de Maria, padroeira especial do seu pontificado, est� portanto intimamente relacionada com a presen�a de Jo�o Paulo II na sede de Pedro e com tudo quanto ele conseguiu realizar num dos mais longos pontificados da Hist�ria. No recinto do Santu�rio foi erguido um muro que enquadra uma Porta Santa alusiva ao Jubileu: a peregrina��o do Papa a F�tima n�o se confunde com a etapa imposs�vel - e muito menos com as viagens que teria gostado de realizar e n�o p�de, por n�o lhe ter sido permitido (R�ssia, China, Vietname, Gr�cia...), mas tem certamente uma forte liga��o ao Jubileu: sem a protec��o de Maria naquele j� long�nquo 13 de Maio, protec��o que o Santo Padre sempre reconheceu directamente, ele n�o teria atravessado a "Porta" do Ano Santo de 1984, e muito menos a do Jubileu do ano 2000. Um Papa com um carisma pessoal menos forte n�o teria realizado tantas viagens apost�licas; sem este Papa polaco, conhecedor directo das atrocidades da II Guerra Mundial, n�o teria havido provavelmente a aproxima��o entre judeus e crist�os e � improv�vel que a defesa dos direitos humanos e o tema da reconcilia��o, incluindo o reconhecimento das culpas hist�ricas da Igreja com o inerente pedido de perd�o, tivessem recebido um impulso t�o grande.
Neste sentido, a devo��o a Maria � a raz�o mais profunda desta 92� Viagem Apost�lica, e o Santu�rio de F�tima torna-se uma etapa obrigat�ria da peregrina��o jubilar de Jo�o Paulo II. Talvez uma etapa "for�ada", encaixada a contragosto de alguns no calend�rio das celebra��es jubilares, mas um momento providencial de reencontro com a hist�ria dos �ltimos 20 anos, fortemente influenciada pelo carisma e estilo de um Papa que foi capaz, por um lado, de se manter fiel �s tradi��es religiosas arreigadas na cultura religiosa da sua Terra natal e, por outro, de derrubar muros e barreiras, materiais e ideol�gicas, dentro e fora da Igreja.

Fernando Pinho
Jornalista