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D. Jos� Saraiva Martins fala sobre os pastorinhos de F�tima |
Ag�ncia Ecclesia - Com que originalidades se revestem as beatifica��es de Jacinta e Francisco?
D. Jos� Saraiva Martins - Cada beatifica��o tem a sua originalidade, porque cada pessoa elevada �s honras dos altares sobressai do comum dos mortais. Pode acontecer que, tratando-se de m�rtires, um ou outros permane�a no anonimato. Folheando as p�ginas do Martirol�gio, encontram-se de facto grupos numerosos de m�rtires, em que se referem os nomes s� de alguns, colocando os restantes na categoria vaga de "companheiros", ou por falta de elementos identificadores ou pela grande quantidade das pessoas martirizadas. Quando por�m se trata de Confessores, como � o caso da Jacinta e do Francisco, pessoas que se evidenciaram pela heroicidade de um conjunto de virtudes e que o fizeram de forma continuada, n�o h� lugar para generalidades ou anonimatos. Cada Santo � uma gra�a especial que Deus concede � Igreja, uma mensagem forte, um carisma. Pense-se nos fundadores de Ordens e Congrega��es religiosas, em Santos que marcaram uma �poca ou um determinado contexto; a sua beatifica��o ou canoniza��o tem uma repercuss�o muito significativa, alargada a toda a fam�lia religiosa ou a todo o contexto onde o Beato ou o Santo brilhou como astro em firmamento.
No caso concreto da Jacinta e do Francisco, a sua originalidade coincide com a de F�tima. As apari��es da Cova da Iria constituem um fen�meno religioso singular, que marcou notavelmente a vida religiosa portuguesa e n�o s�. Beatificar os pastorinhos � real�ar essa novidade, essa originalidade; n�o em sentido absoluto, uma vez que a mensagem de F�tima veio apenas repetir o convite b�blico e perene na hist�ria da Igreja de rezar e converter-se, mas novo e original na modalidade e intensidade do fen�meno e na heroicidade da resposta que ao menos a Jacinta e o Francisco souberam dar.
Se por originalidades das beatifica��es em quest�o entende alguma situa��o processual particular, algum problema espec�fico suscitado com essas beatifica��es, respondo na pergunta a seguir.
A.E. - � a primeira vez que crian�as s�o beatificadas. Abre-se assim um novo cap�tulo na Hist�ria da Igreja, nomeadamente na Congrega��o para as Causas dos Santos?
J.S.M. - Sim. As beatifica��es da Jacinta e do Francisco s�o uma novidade, n�o enquanto beatifica��es de crian�as, mas enquanto s�o beatificadas crian�as na chamada categoria dos Confessores.
Crian�as m�rtires que sejam objecto de culto ou tenham sido beatificadas, h� muitas. � o caso cl�ssico dos Santos Inocentes, cuja Festa lit�rgica se celebra a 28 de Dezembro. Eram crian�as abaixo dos dois anos, segundo o relato do Evangelista. Independentemente das considera��es exeg�ticas, a Igreja desde s�culos aceita e prop�e o culto das crian�as que em Bel�m foram v�timas da viol�ncia de Herodes. Depois, s�o as m�ltiplas refer�ncias do Martirol�gio Romano a grupos de m�rtires, que incluem crian�as de tenra idade. Ainda h� bem pouco tempo, no passado dia 5 de Mar�o concretamente, foram beatificados os m�rtires do Nordeste do Brasil, com crian�as de meses e poucos anos martirizadas � mistura com adultos. E tamb�m elas foram beatificadas.
Adolescentes, canonizados na categoria de confessores, tamb�m os h�; por exemplo: S�o Domingos S�vio, a Beata Laura Vicu�a. Da idade da Jacinta e do Francisco, na pr�-adolesc�ncia, � que � novidade. Eles s�o, de facto, as primeiras crian�as n�o m�rtires, a ser beatificadas na hist�ria da Igreja. A raz�o de a Igreja n�o ter beatificado outras crian�as antes dos pastorinhos est� na convic��o que se tinha de que as crian�as, por causa da sua tenra idade, ainda n�o podiam praticar as virtudes crist�s em grau her�ico. O problema foi estudado pelo Dicast�rio das Causas dos Santos sob os pontos de vista teol�gico, jur�dico e psicol�gico, no princ�pio da d�cada de oitenta. A conclus�o de tal estudo foi que tamb�m as crian�as, apesar da sua idade, podem praticar as virtudes em grau her�ico, podendo, portanto, tamb�m elas, ser beatificadas e canonizadas. Chegou-se assim a uma mudan�a da praxe da Igreja. A beatifica��o dos Pastorinhos � a primeira aplica��o de tal mudan�a. Por isso ela abre, sem d�vida, um novo cap�tulo na hist�ria da Igreja, nomeadamente no Dicast�rio das Causas dos Santos.
A.E. - O processo de beatifica��o teve que ultrapassar barreiras que outros processos normalmente n�o t�m?
J.S.M. - A resposta em parte est� dada na pergunta precedente. A Causa da Jacinta e do Francisco, tirado o interrogativo da idade, ou seja, se na pr�-adolesc�ncia se possa praticar a virtude em grau her�ico, processou-se com muita normalidade. F�tima bem depressa se afirmou na vida da Igreja e a fama de santidade dos dois pastorinhos difundiu-se e cresceu, logo ap�s a morte dos mesmos. Houve o cuidado de recolher a documenta��o necess�ria; os fi�is come�aram a recorrer � intercess�o da Jacinta e do Francisco Marto e as gra�as foram aparecendo. Diria mesmo que os processos dos dois videntes foram muito lineares. Algu�m poderia ser tentado a sugerir um adiamento, pelo facto de os videntes serem tr�s e um, felizmente, ainda estar vivo, a irm� L�cia. N�o havia motivo para isso. O fen�meno de F�tima, sob o ponto de vista das apari��es, considerou-se encerrado a 13 de Outubro de 1917. A fase que seguiu foi a da divulga��o da mensagem e foi nesse contexto que a Jacinta e o Francisco sobressa�ram em santidade. N�o havia raz�es para esperar.
A.E. - O facto de ser portugu�s o Prefeito da Congrega��o para a Causa dos Santos teve alguma influ�ncia no decorrer do processo de beatifica��o?
J.S.M. -De maneira nenhuma. J� h� muitos anos que a Causa vem sendo preparada. J� no in�cio da d�cada de oitenta, como disse, nos tempos em que era Prefeito o Cardeal Pallazzini, uma Assembleia Plen�ria da Congrega��o debru�ou-se sobre um aspecto espec�fico de dita Causa, sinal de que se tratava de um processo s�rio e adiantado. Por essa altura, deu-se um grande movimento de apoio � Causa, com in�meras cartas enviadas por membros do Episcopado a solicitar a beatifica��o da Jacinta e do Francisco; tamb�m isto � prova de um grande e alargado empenho. Quando assumi o cargo de Prefeito da Congrega��o, a Causa em quest�o estava bastante adiantada. Tratava-se mais de pormenores de calendariza��o. � natural que, por uma afinidade geogr�fica, seguisse com interesse o processo, mas sem necessidade alguma de influir nele. Por outro lado, a praxe da Congrega��o funciona de tal maneira que s�o descabidas interven��es do g�nero. O m�ximo que se poder� fazer s�o ajustamentos de calend�rio.
A.E. - Que virtudes destaca nos novos Beatos?
J.S.M. -Obviamente as virtudes pedidas na mensagem de F�tima, que s�o essencialmente ora��o e penit�ncia. Nossa Senhora veio pedir que as pessoas se convertessem, n�o ofendessem mais a Deus e rezassem. E a ora��o recomendada foi o ter�o. Por isso a Senhora tamb�m se identificou como sendo a Senhora do Ros�rio.
Ora, se a Jacinta e o Francisco foram escolhidos para transmitir ao mundo essa mensagem, era natural que fossem os primeiros a cumpri-la e a se evidenciarem nela. E assim resulta das biografias dos pastorinhos: rezavam sem cessar, pediam pela convers�o dos pecadores e mortificavam-se, inventando formas singulares de ren�ncia para reparar o Senhor das ofensas que recebia e conseguir a convers�o dos pecadores. Uma linguagem muito simples, mas vivida na heroicidade. Assim, as virtudes que se destacam nos novos Beatos s�o precisamente o sentido de Deus e a intimidade com Ele, expressos na ora��o; a caridade para com o pr�ximo, feita de zelo pela sua salva��o, e a capacidade de se sacrificar, naquele esp�rito de doa��o e obla��o de que j� falava S�o Paulo e que deve ser t�pico de todo o crist�o. Al�m disso, os pastorinhos de F�tima destacam-se por outra virtude que, mais do que adquirida, lhes era conatural: a inoc�ncia. Impressiona a iniciativa de Nossa Senhora de escolher crian�as para transmitir a sua mensagem. A Jacinta tinha seis anos e o Francisco sete, na altura das apari��es. Comovem-nos pela sua candura, pela sua inoc�ncia e espontaneidade. S�o virtudes que fazem falta tamb�m a n�s adultos. J� o Senhor diz no Evangelho que o reino dos c�us � de quem consegue tornar-se como as crian�as. A Jacinta e o Francisco t�m muito a ensinar-nos tamb�m neste aspecto.
A.E. - Que repercuss�es podem ter as beatifica��es dos dois videntes de F�tima para a pastoral que se desenvolve neste Santu�rio Mariano?
J.S.M. -As beatifica��es e canoniza��es s�o actos eminentemente pastorais. A Igreja eleva �s honras dos altares alguns dos seus filhos, n�o tanto para os homenagear, mas para que ajudem os fi�is que ainda peregrinam neste mundo, a salvar-se. As beatifica��es comportam um culto, que � feito de ora��o - a intercess�o pedida aos Beatos e Santos - e tamb�m de catequese - a fazer deles modelos de vida. Culto e catequese s�o precisamente os objectivos da pastoral da Igreja. � portanto l�gico que cada beatifica��o comporte um novo impulso pastoral, nomeadamente no contexto geogr�fico ou cultural do novo beato.
Todos conhecem os m�ritos do Santu�rio de F�tima no panorama pastoral de Portugal e n�o s�. Da� que as beatifica��es dos pastorinhos, comportando uma nova acentua��o da mensagem de F�tima e do papel do Santu�rio, tragam necessariamente novas perspectivas pastorais que certamente ser�o atendidas.
N�o se esque�a, por outro lado, que Nossa Senhora escolheu tr�s crian�as para transmitir ao mundo a sua mensagem. Sem d�vida havia uma inten��o nessa escolha, pois nas coisas de Deus nada acontece ao acaso. Tr�s crian�as foram os protagonistas do fen�meno de F�tima. � de esperar que o Santu�rio tenha em conta essa peculiaridade e privilegie o mundo juvenil na divulga��o da mensagem de F�tima.
A.E. - A catequese, a educa��o na f� dos mais novos ganha novos contornos com estas beatifica��es?
J.S.M. - H� um sector da pastoral a que a Igreja vem dedicando especial aten��o, sobretudo a partir do s�culo passado: a pastoral da juventude. Com o avan�ar da seculariza��o, os valores crist�os deixaram de ser os grandes pontos de refer�ncia cultural da sociedade e, tamb�m o avan�ar e alargamento da escolaridade, que s�o certamente dados positivos, levou a fam�lia a perder o exclusivo da educa��o dos filhos. Era natural que essas mudan�as comportassem novos desafios, que interpelavam a pr�pria Igreja. Esta sentiu o dever de ajudar as fam�lias crist�s na sua delicada fun��o educativa. Da� o grande impulso dado � catequese juvenil e as grandes iniciativas em favor da juventude. Hoje n�o h� diocese nem par�quia que se prezem que n�o dediquem especial aten��o e d�em grande espa�o ao sector da pastoral juvenil.
Com a beatifica��o dos pastorinhos, esta pastoral sectorial enriquece-se. Quer os encarregados e operadores da pastoral juvenil, quer sobretudo os que s�o alvo da mesma - as crian�as, os adolescentes e at� os jovens - encontrar�o na Jacinta e no Francisco novos modelos e nova inspira��o. A pastoral juvenil certamente lucrar� com isso, sob todos os pontos de vista.
A.E. - No contexto do Jubileu, que import�ncia t�m estas beatifica��es?
J.S.M. - Jubileu � um ano de gra�a, uma ocasi�o privilegiada de revis�o e programa��o. A singularidade de um Jubileu n�o est� tanto nos conte�dos, mas na resson�ncia dos mesmos. Quando algu�m celebra um anivers�rio jubilar, n�o � que crie algo de novo, apenas fortalece o empenho que comemora. Assim � na Igreja: aproveitam-se certos anivers�rios para dar nova �nfase aos acontecimentos de origem.
A riqueza que pode advir para uma beatifica��o que coincida com o Grande Jubileu, � mais propriamente a de uma especial projec��o. Certos acontecimentos t�m maior impacto pelo facto de serem celebrados no contexto do Grande Jubileu. H� uma sensibilidade particular, uma maior comunica��o e mobiliza��o. Creio que � essa a vantagem da coincid�ncia das beatifica��es da Jacinta e do Francisco com o Grande Jubileu do ano 2000. Entrando num novo mil�nio, tudo o que se evidencie nessa entrada pode projectar uma luz especial no mil�nio inteiro; constituir como que um elemento program�tico, um empenho. Fora disso, creio que a beatifica��o dos pastorinhos um ano antes ou depois, teria sido igual.
A.E. - Portugal � um pa�s privilegiado por receber o Papa neste Ano Jubilar?
J.S.M. - Certamente. Mas gostaria de precisar que, mais do que um acontecimento nacional, a ida do Papa a F�tima � um acontecimento eclesial. Mais do que visitar Portugal, o Santo Padre vai a F�tima, num acto eminentemente religioso. J� o programa da viagem � elucidativo dessa finalidade peculiar.
Por outro lado, a visita do Santo Padre a um Pa�s � sempre um acontecimento positivo, de modo especial para os Cat�licos que nele vivem. � sempre uma honra receber a visita do Santo Padre, por aquilo que ele representa. Estando F�tima situada em Portugal, � natural que tamb�m a Na��o inteira como tal beneficie, at� em termos de not�cia. A 13 de Maio, Portugal constituir� tema dos notici�rios de muitas partes do mundo. Tamb�m nesse sentido, Portugal pode considerar-se privilegiado.
A ida do Santo Padre a F�tima tem, depois, um sabor especial, porque n�o estava programada. Deve-se a uma especial aten��o do pr�prio Santo Padre por aquilo que F�tima representa.
A.E. - Na sua opini�o, a beatifica��o dos pastorinhos pelo actual Papa e a desloca��o do Santo Padre a F�tima acontece porque a afectividade de Jo�o Paulo II falou mais alto?
J.S.M. - N�o � mist�rio nenhum a grande devo��o do actual sumo Pont�fice a Nossa Senhora. O Totus Tuus do seu emblema episcopal refere-se a Maria.
F�tima teve sempre uma liga��o especial com o Santo Padre. Lendo qualquer biografia dos pastorinhos depara-se com essa especial liga��o das apari��es com a figura e fun��o do Santo Padre na Igreja. A pr�pria �ltima parte do t�o decantado segredo de F�tima tinha como destinat�rio o Santo Padre. Para ela se dirigia essa parte da mensagem e s� o Papa que governasse a Igreja em 1960 poderia revel�-la, se assim entendesse. Gosto de lembrar como a 13 de Maio de 1917, dia da primeira apari��o, foi sagrado bispo aquele que deveria ser Papa com o nome de Pio XII. Coincid�ncias que t�m o seu sentido.
N�o me co�bo tamb�m de acenar ao grande significado de esperan�a que F�tima teve para as Igrejas que sofreram nos Pa�ses de Leste com as conhecidas restri��es que os regimes a� imperantes punham ao exerc�cio da religi�o, sobretudo Cat�lica. A Pol�nia foi uma dessas Igrejas da chamada cortina de ferro. � compreens�vel que um Papa vindo desse contexto e, ainda por cima, t�o mariano, tenha uma especial devo��o a Nossa Senhora de F�tima.
H� uma outra coincid�ncia singular na vida deste Pont�fice. O grave atentado que sofreu na Pra�a de S�o Pedro foi precisamente num 13 de Maio. Foi ele mesmo a ligar a salva��o da sua vida � interven��o de Nossa Senhora de F�tima e quis que a bala desse atentado fosse inserida na coroa da Senhora de F�tima.
N�o � de estranhar que, superando dificuldades de v�ria ordem, inclusive de programa��o jubilar, Jo�o Paulo II tenha manifestado uma especial disponibilidade para se deslocar ao Santu�rio de F�tima e a� beatificar os dois videntes t�o intimamente ligados ao fen�meno religioso que deu origem ao que F�tima significa. Concordo, portanto, que a voz da afectividade de Jo�o Paulo II por F�tima tenha pesado, de certa maneira, nessa decis�o.