M de Maria no Pontificado de Jo�o Paulo II


Desde crian�a Karol Wojtyla tem uma forte devo��o a Nossa Senhora. Quando morreu a sua m�e, era ainda crian�a, passou a visitar frequentemente a Igreja paroquial e habituou-se a confiar todas as suas preocupa��es e anseios � Virgem. Mais tarde, quando foi nomeado bispo, escolheu para as suas armas episcopais, a letra M junto � cruz e a express�o "Totus Tuus", como sinal de total entrega a Maria. E com frequ�ncia o ent�o bispo e cardeal de Crac�via era visto no Santu�rio da Virgem Negra de Czestochowa, ajoelhado aos p�s da Rainha da Pol�nia. A devo��o de Jo�o Paulo II a Nossa Senhora sempre foi por isso ineg�vel. Mas com o atentado da Pra�a de S�o Pedro, muita coisa mudou na vida do Papa.
No dia 13 de Maio de 1981 Ali Agca disparou para o matar. O turco e atirador profissional sabia que, apenas a 3 metros de dist�ncia, no lugar onde se encontrava, os tiros seriam fatais. Os pr�prios m�dicos que operaram o Papa, horas depois do atentado, reconheceram que a bala de 9 mm que lhe destruiu parte do c�lon e do intestino delgado, fez inexplicavelmente um desvio a poucos mil�metros da aorta e n�o atingiu outros org�os vitais.
Jo�o Paulo II n�o tem d�vidas. Acredita que a sua vida foi salva por milagre, gra�as � interven��o da Virgem de F�tima. No ano seguinte ao atentado, veio a F�tima agradecer esta especial protec��o: "Vi em tudo o que foi sucedendo - n�o me canso de o repetir - uma especial protec��o materna de Nossa Senhora. E por coincid�ncia - e n�o h� meras coincid�ncias nos des�gnios da Provid�ncia divina - vi tamb�m um apelo e, qui�� uma chamada de aten��o para a mensagem que daqui partiu".
Com efeito, todo o pontificado de Jo�o Paulo II est� intr�nsecamente ligado � mensagem de F�tima. Os esfor�os do Papa em cumprir todas as indica��es que a Virgem deixou aos pastorinhos tiveram o seu ponto alto no acto de consagra��o que realizou em Roma, a 25 de Mar�o de 1984, em uni�o com todos os bispos do mundo. Para presidir a esta celebra��o, o Santo Padre fez vir da Capelinha das apari��es a imagem oficial da Virgem de F�tima. No dia seguinte, Jo�o Paulo II entrega ao Bispo de Leiria, D. Alberto Cosme do Amaral, uma pequena caixa com "um presente para Nossa Senhora". Comovido, o bispo abre a caixa e v� a bala que tinha atravessado o corpo do Papa. Este objecto mortal est� hoje encastoado no topo da coroa preciosa que Nossa Senhora usa nos dias 13 de Maio e Outubro. No ano seguinte � consagra��o realizada em Roma, Gorbatchev � eleito na URSS e d�-se in�cio � "Perestroika".
Dez anos ap�s o atentado, Jo�o Paulo II volta a F�tima. Desta vez, para al�m do aspecto pessoal, o Papa tem outros motivos para agradecer � Virgem. O muro de Berlim j� n�o existe e os pa�ses de Leste abriam nessa �poca as portas � consolida��o da democracia. Neste contexto, o Papa vem a F�tima "a fim de agradecer a Nossa Senhora a protec��o dada � Igreja nestes anos, que registaram r�pidas e profundas transforma��es sociais, permitindo abrirem-se novas esperan�as para v�rios povos oprimidos por ideologias ateias que impediram a pr�tica da sua f�."
Mas a forte liga��o deste Papa a F�tima �, sobretudo, pessoal e por diversas vezes Jo�o Paulo II se refere ao "milagre de 13 de Maio". Na audi�ncia de 15 de Maio de 1991, logo ap�s a visita a Portugal afirma: "Considero todo este dec�nio como dom gratuito que, de modo especial, devo � Provid�ncia divina. Foi-me concedido particularmente como um dever, para que ainda pudesse servir a Igreja, exercendo o minist�rio de Pedro." Mas ainda na mesma audi�ncia geral, as palavras mais significativas s�o as que dirige aos polacos: "h� dez anos fui introduzido na experi�ncia de F�tima vivida pela Igreja. Isto aconteceu na tarde do dia 13 de Maio: o atentado � vida do Papa. (...) Sei que a vida, a mim concedida de novo h� dez anos, foi-me dada pela misericordiosa Provid�ncia de Deus. N�o esque�amos as grandes obras de Deus".
No mesmo ano, durante uma visita pastoral ao Brasil, o Papa festeja o anivers�rio da sua elei��o pontif�cia. � o dia 16 de Outubro de 1991 e o episcopado brasileiro faz-lhe um brinde pelos seus treze anos de pontificado. Jo�o Paulo II deixa que lhe fa�am a homenagem e, no final, levanta-se e corrige "N�o se pode falar em treze anos. O que est� certo � dizer que foram tr�s anos de pontificado e dez de milagre".
Mas talvez a refer�ncia mais significativa de Jo�o Paulo II ao atentado se encontre numa carta que, em 19 de Maio de 1994, escreveu ao episcopado italiano. As palavras foram escritas no hospital, onde estava internado devido � fractura no f�mur: "Todos n�s recordamos aquela hora, � tarde, quando foram disparados alguns tiros de pistola contra o Papa, com a inten��o de o privar da vida. O proj�ctil que lhe trespassou o abd�men encontra-se agora no Santu�rio de F�tima; a faixa, por sua vez, perfurada pelo proj�ctil, est� no Santu�rio de J�sna G�ra. Foi uma m�o materna a guiar o trajecto da bala, e o Papa agonizante transportado para a Policl�nica Gemelli, deteve-se � margem da morte. (...) Aquele tiro na Pra�a de S�o Pedro deveria ter privado o Papa da vida h� 13 anos. Mas, ao contr�rio, o proj�ctil mortal deteve-se e o Papa vive - vive para servir!"
� com esta consci�ncia que Jo�o Paulo II decide vir agora a F�tima, neste Jubileu do ano 2000. A sua agenda n�o previa qualquer desloca��o fora de It�lia, excepto a peregrina��o aos lugares santos. A beatifica��o dos pastorinhos chegou mesmo a ser calendarizada para 9 de Abril em Roma, mas o Santo Padre decidiu de outro modo e vem a F�tima, chamar a aten��o do mundo inteiro para a exemplaridade de Jacinta e Francisco Marto. Um gesto surpreendente que mais uma vez testemunha a profunda liga��o deste Papa e de todo o seu pontificado � mensagem de F�tima e que, seguramente, receber� da parte dos portugueses um acolhimento inesquec�vel.

Aura Miguel
Jornalista da R�dio Renascen�a